O abandono de pets

A imagem acima foi feita por mim, com meu celular, no final do mês de dezembro do ano passado. Ambas as cadelinhas, a da direita em estado de prenhez avançado, tinham sido amarradas às grades próximas ao curral do abrigo municipal da cidade do Rio de Janeiro. O dia estava extremamente quente, e mesmo assim o(a) responsável pelo ato criminoso as deixou lá, debaixo de sol escaldante, sem sequer uma vasilha de água por perto. Foram resgatadas por dois valentes profissionais terceirizados, que testemunharam a triste cena e de imediato prestaram o socorro necessário.

Para quem não acompanha de perto essas questões, sinto informar que essa é a realidade corriqueira e diária de todos os locais, públicos ou não, que mantém animais sob a sua tutela, mesmo que de forma temporária, principalmente cães e gatos. Não pretendo, nem de longe, esgotar o assunto nesta postagem, mas trago alguns aspectos que julgo importantes para que possamos tentar entender o que motiva esses crimes (sim, abandono de animais é crime, segundo a Lei Federal n° 9605/98).

Já que citei a lei acima, também conhecida como Lei de Crimes Ambientais, é importante que se diga que abandonar pets à própria sorte é uma forma de maus-tratos. Segundo o Art. 32 dessa lei, a pena consiste em detenção de três meses a um ano e multa. Será que essa legislação está cumprindo o seu papel de coibir e, principalmente, punir quem pratica esse tipo de delito? Para que tenhamos uma boa ideia sobre isso, basta ver uma matéria publicada há poucos dias no G1, que diz ter sido um idoso preso trinta e duas vezes – isso mesmo!!! – a mais recente detenção em Fortaleza/CE, onde foi flagrado fazendo transporte irregular de aves e pequenos mamíferos pelo Nordeste afora. Após a autuação, o cidadão foi liberado, como das outras tantas ocasiões. Revoltante, para falar o mínimo.

Além da legislação carcomida e dos parcos recursos dos órgãos ligados ao ambiente e à segurança pública, ainda há uma questão social relevante: há milhões de desempregados no Brasil. Com a economia em frangalhos, a população vai se virando e cortando gastos, e os animais, infelizmente, entram para a lista dos supérfluos das pessoas que acham que eles são “coisas”, aliás, conforme preconiza o nosso Código Civil. Animais são seres sencientes, que têm a capacidade de sentir, por exemplo, as sensações de dor e agonia, e também de vivenciar emoções como medo, ansiedade, etc. Não são, conforme falou Descartes há quatrocentos anos atrás, influenciando de maneira errônea grande parte da sociedade desde então, apenas “máquinas” sem alma. Haja trabalhos intensos e constantes de educação e de conscientização para reverter esse pensamento tacanho…

A coisa é muito séria. Um levantamento feito em 2016 pela Revista Veja mostra que, somente na capital de São Paulo, pelo menos quinhentos pets são resgatados das ruas por mês. Isso dá uma média de dezesseis por dia, ou cerca de seis mil por ano. Boa parte deles já teve uma casa e foi abandonada pelo tutor, segundo informações de Organizações Não Governamentais que lá atuam. As grandes cidades, em maior ou menor grau, estão passando por esse sufoco.

Termino este meu texto com um filme muito expressivo sobre o tema. Verifiquem o quão chocante é. Quando conseguirmos nos colocar na posição do outro, mesmo que não seja um ser “racional” como nós mesmos nos auto-intitulamos, esses crimes absurdos realmente passarão a constar de estatísticas confiáveis. Por enquanto, fica apenas a impotência e a indignação de quem se importa.

 

Sobre Mauro Blanco

Sou carioca da gema, morador da Zona Oeste, tricolor, bacharel e mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor concursado da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Já atuei como Oficial Temporário no Exército Brasileiro, na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (como Subgerente na Gerência de Vetores), na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (como Coordenador de Controle de Vetores, Coordenador de Vigilância Ambiental em Saúde e Diretor do Centro de Vigilância e Fiscalização Sanitária em Zoonoses Paulo Dacorso Filho), e na Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, instância pertencente à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, como Subsecretário.
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11 respostas para O abandono de pets

  1. Rosângela Monteiro D'Almeida disse:

    Parabéns pelo trabalho lindo

  2. Carlos Alberto Azeredo disse:

    Prezado Mauro,
    Como sempre, muito pertinentes suas colocações, as quais encontram lastro perfeito no vídeo disponibilizado, que retrata a exata percepção de pertencimento dos nossos pets… É assim que eles se percebem… Como um membro da família.
    Entretanto, infelizmente, acho que esse cenário precisará de muito tempo pra mudar, talvez mais do que eu e você possamos esperar, em particular em razão da crescente degradação de valores em curso em nossa sociedade.
    Por outro lado, se nada fizermos, será daí pra pior.
    Parabéns!!

  3. Excelente publicação sobre maus-tratos.
    Blog de utilidade pública, com rica informação sobre diversos assuntos.
    Muito bem redigido!
    Parabéns, muito bom…

  4. Desirée Mendonça disse:

    Sempre admirei seu trabalho, acho absurdo terem extinto a Secretaria de Defesa e proteção aos animais, e acho calamitosa a situação dos pequenos seres que são abandonados por pessoas cruéis e irresponsáveis a cada dia, fora os que já nascem no abandono… Compartilharei com prazer o seu artigo!!! Um abraço!

  5. Carlos Vinicius Marins disse:

    Parabéns! Excelente texto. Precisamos mesmo conscientizar as pessoas sobre esta irresponsabilidade.

  6. Cristina correia disse:

    Parabéns pelo texto. Pura realidade q vemos de perto em nossa cidade…. Infelizmente, Já tinha assistido a esse vídeo, e até eu como engajada na causa, me surpreendi com o final. Percepção corretíssima dos criadores do filme. Vou CPT.

  7. Mauro, agradecemos pelo texto. A chamada para a atenção ao problema do abandono de animais é importante. A crueldade com animais e plantas tem que ser sempre combatida. Sócrates dizia “Não é difícil escapar da morte. Todo soldado sabe, basta sair fugindo. O mais difícil é escapar da maldade, pois ela é mais rápida que nós”. Como uma praga cresce em algum ser humano e de repente lhe finda a HUMANIDADE. Transforma-o em bloco de gelo diante da vida. Um forte abraço.

  8. Como sempre, seus textos são excelentes, parabéns! O vídeo…sem palavras, difícil não se emocionar.

    • Mauro Blanco disse:

      Muito obrigado pelas palavras, minha amiga e colega de profissão. Assim como devemos fazer com nosso semelhante, nos colocando no lugar dele sempre que possível, o mesmo se fez necessário em relação aos animais. Meu avô José Blanco já dizia: não faças com os outros o que não queres que te façam.

  9. Marcia Fajardo disse:

    Texto excelente! Parabéns amigo. Realmente nossas leis são frágeis e caducas. Não respeitamos nosso planeta, agimos com sentimentos imediatistas, e não cuidamos o que temos ..

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