Contrastes do meu bairro

Acordar todas as manhãs e vislumbrar, pela janela do quarto, uma bela visão é um privilégio que tenho aqui no bairro onde vivo com minha família. Ter a Serra do Mendanha a nos dar bom dia, com céus de brigadeiro ou nublados, como na imagem que faz a abertura desta postagem, é um dos aspectos positivos que tenho a ressaltar de Campo Grande, esse imenso “arraial” da zona oeste da Cidade do Rio de Janeiro, que, segundo informações que pesquisei rapidamente na internet, seria o bairro campeão brasileiro em população, com 336.484 pessoas distribuídas por 104,9 km². Para evidenciar sua pujança, já em 1968 Campo Grande recebeu, do então Estado da Guanabara, o título de “Cidade Honorária”.

Mas nem tudo são flores. Como diria o fantástico Guilherme Arantes, na música Deixa Chover, “infelizmente nem tudo é exatamente como a gente quer”. Há que se mostrar o belo, evidentemente, mas os percalços também devem ser expostos, senão por pura indignação, visando alertar o Poder Público e fazê-lo direcionar forças para solucionar os problemas. Muitas das vezes nem a “boca no trombone” funciona, tamanhos são a incompetência, falta de sensibilidade e, vez por outra, o comprometimento dos agentes públicos com esquemas nada republicanos, alguns atolados até as ventas em irregularidades das mais diversificadas.

Se por um lado há a clorofila da nossa Serra para nos trazer algum alento e oxigênio, por outro – e venho batendo nessa tecla há algum tempo – o verde que ainda existe na área urbana vem sendo sobrepujado, a passos largos e ligeiros, pelo concreto. A quantidade de prédios, de Minhas Casas Minhas Vidas, e de, consequentemente, automóveis que se multiplicam como erva daninha é algo que desanima e traz angústia. A qualidade do ar que respiramos, obviamente, tem se tornado cada vez mais precária. Poderia citar vários exemplos de destruição apenas aqui no bairro, mas ficarei com um que acontece neste momento e bem próximo de onde estou.

O local fica na Estrada do Mendanha nº 2854.

Havia aqui perto um endereço conhecido como Granja 13 (também intitulado Casa de Galícia). Não há referências expressivas na web, apenas que o local funcionou no passado, pelo que o nome sugere, como um aviário. Não o conheci assim. Quando vim morar em Campo Grande, há pelo menos 12 anos, o local funcionava como uma casa de festas. Por ocasião da visita que fiz por lá, na companhia dos meus filhos, ainda pequenos, quem nos recebeu foi seu proprietário, o espanhol César Blanco. Por enorme coincidência egresso da Galícia, onde os Blanco surgiram. O tempo passou e não mais fiz contato com ele ou vice-versa.

Bom, mais um empreendimento imobiliário tomou conta do lugar e as centenas e centenas de árvores que lá cresciam já foram derrubadas. Quem passa em frente ao endereço e vê no que o lugar está se transformando sente até um aperto no peito. Verde, por lá, somente vingará em alguns canteiros de estacionamento, se houver, com as badaladas ixoras. Se vai existir plantio de árvores no próprio bairro como forma de compensação ambiental, só Deus sabe! Aliás, pouquíssimo ou nada assistimos nesse sentido em qualquer dos 160 bairros da cidade, e também nada conseguimos acompanhar nos sites de órgãos governamentais ligados ao Meio Ambiente. Nada.

Retrato da devastação que a modernidade conduz. As árvores que ainda estão de pé tombarão cedo ou tarde. Será que a mesma quantidade delas será plantada no bairro para amenizar essa destruição?

E para terminar esse meu desabafo, eis que chega o nosso chefe do Executivo estadual e pede para que os cidadãos fluminenses falem, nas Redes Sociais, apenas coisas boas do RJ com a finalidade de atrair turistas. Ora bolas, quando tiver de falar mal, falarei. O contrário também é verdadeiro, pois não? Normalmente nossos dirigentes, notadamente os entes políticos, vivem noutra realidade que não a da maioria de nós, tipo Twilight Zone. Enquanto eles não utilizam transportes, hospitais e nem escolas, todos públicos, possuem um monte de guarda-costas e trafegam com batedores em carros blindados, quando não pelos ares de jatinhos ou helicópteros, os pobres mortais pagadores de impostos vão se virando como podem.

Site Besteiras da Internet: Lanchonete Canibal.

É como pedir ao náufrago que está numa pequena ilha repleta de canibais e infestada por cobras peçonhentas para ignorar os fatos que estão ao seu redor, pois ganhou um prêmio e passará a viver despreocupadamente numa espécie de paraíso aqui na Terra. Se por acaso o naufragado, na escuridão da noite, ver algum insulano ao seu lado com um tacape na mão e lambendo os beiços, a orientação é para que não se desespere. O camarada apenas vai convidá-lo para o jantar…

Sobre Mauro Blanco

Sou carioca da gema, morador da Zona Oeste, tricolor, bacharel e mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor concursado da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Já atuei como Oficial Temporário no Exército Brasileiro, na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (como Subgerente na Gerência de Vetores), na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (como Coordenador de Controle de Vetores, Coordenador de Vigilância Ambiental em Saúde e Diretor do Centro de Vigilância e Fiscalização Sanitária em Zoonoses Paulo Dacorso Filho), e na Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, instância pertencente à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, como Subsecretário.
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6 respostas para Contrastes do meu bairro

  1. maria lucia disse:

    Mauro, moro no bairro de Campo Grande desde que nasci e ali realmente teve um período onde vendiam galinhas, e há alguns anos atrás passaram a usar como salão de festas.
    Espaço bonito e muito arborizado, com parte de decoração antiga, a Granja 13 sempre foi muito conhecida pelos moradores de Campo Grande.
    Também fiquei muito triste quando vi sua devastação para construir mais prédios.
    Desolador ver tantas árvores centenárias sendo derrubadas, principalmente porque nossa fauna também esta sendo devastada, visto que no local ainda existiam muitos micos, pássaros e etc.
    Triste ver essa devastação e destruição de nossas árvores, de nosso oxigênio, de nossa fauna e flora.

    • Mauro Blanco disse:

      Triste realidade, cara vizinha. Foquei em meu texto apenas o Reino Vegetal, mas sua observação é extremamente pertinente. Perdem espaço, também, os animais que viviam naquele microambiente. Ou fogem para outro local que tenha condições semelhantes, ou estão fadados a perecer.

  2. Jeter Pereira dos Santos disse:

    Cheguei comemorar o aniversário da minha mãe lá e os proprietários tinham um momento em que davam aos clientes (funcionava como restaurante) uma oportunidade de cantar, recitar ou expor seu lado artístico seja lá qual fosse. Foi quando minha mãe com seus oitenta e poucos anos recitou uma linda poesia.
    Uma pena um espaço como aquele terminar assim… saudade!

    • Mauro Blanco disse:

      Realmente, Jeter, uma pena. Sinais da modernidade. E dessa forma, vamos perdendo qualidade do ar que respiramos e, consequentemente, qualidade de vida. A propósito, minha mãe fará 80 em outubro deste ano.

  3. Ana Valeria Freyesleben disse:

    Muito triste tudo isso Mauro. Aqui onde eu moro, no Itanhanga, no coração da Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista, constato este desmatamento com crescente aumento das favelas, levando os animais a nao terem onde se abrigar e sendo mortos a pauladas pelos moradores das favelas. Para mim quem merece as pauladas são os políticos que deixaram e ainda deixam chegar a este estado de coisas, pois uma fiscalização bem feita coibiria qualquer sinal inicial de desmatamento.

    • Mauro Blanco disse:

      Concordo em gênero, número e grau, prezada Ana Valéria. Temos legislações “a torto e a direito”, só que sem fiscalização elas não passam de meras leis para inglês ver, como tenho denunciado várias e várias vezes aqui no Blog do Blanco. Em relação à Proteção Animal, apenas para citar dois exemplos, temos algumas que se enquadrariam bem na denominação acima, e estão nas publicações intituladas “Muitas leis, poucas ações” e “A carroça na frente das leis“. Sobre os políticos, observamos em muitos deles que, quando não há má-fé, existe total despreparo. Ainda temos muito a evoluir…

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