Inguinorança, a bródi do pogresso

Ainda sob o efeito da morte prematura, ontem, do jornalista Ricardo Boechat, que eu escutava praticamente todas as manhãs na Rádio BandNews FM, escrevo abaixo um texto que fala sobre um dos aspectos daninhos do nosso cotidiano. Dedico essas modestas linhas à memória dele.

Falar sobre a falta de educação de nosso povo dá tristeza e, ao mesmo tempo, angustia. Hoje mesmo, no centro do bairro onde vivo com minha família, assisti uma cena que ainda me provoca as sensações acima.

Lá estava eu para atravessar a rua, aguardando a sinalização de trânsito. Ventava um pouco na ocasião, já que estamos vivenciando um momento pré-chuvarada, com milhões de alertas recebidos via Whatsapp, Facebook, SMS, etc. Amanhã, segundo todas as expectativas, o bicho, digo, o temporal vai pegar. Pois bem, do outro lado da rua, para cruzá-la em sentido contrário ao meu, estavam uma pequena multidão e um senhor, que tomava sua garrafinha de água mineral numa boa. Pois bem, quando ele acabou de matar sua sede e esvaziou a garrafa, o que fez? O que? O que? Ganhou um doce quem disse que ele a jogou na calçada como se aquele ato fosse o mais natural possível.

Certamente aquele cidadão, do alto de seus aproximados setenta anos, já viu muita coisa neste mundo. Muitas delas negativas, claro, inclusive várias e várias enchentes devastadoras pelas quais já passou estas paragens cariocas. Não aprendeu que o lixo que ele descarta na rua ajuda a piorar a situação? Não, pelo visto. Mais setenta anos seriam necessários (talvez) para que ele começasse a entender. Deve ser daqueles que reclamam de tudo – inclusive das recorrentes inundações aqui no Rio – e ainda têm a cara de pau de incriminar o Poder Público por todas as desgraças que lhes atormentam. Não quero com isso isentar prefeituras e mesmo o governo estadual de suas responsabilidades, mas nossa sociedade definitivamente não ajuda… Sobretudo quando vai votar em seus representantes.

Uma pequena mostra do quão somos um povo muito mal-educado, para não citar centenas de exemplos, pode ser constatada no pós-réveillon na praia de Copacabana. No mais recente, onde quase três milhões de pessoas se aglomeraram por lá, 385 toneladas de lixo foram deixadas nas areias. Na praia da Barra da Tijuca foram 136 toneladas, no Piscinão de Ramos 15 toneladas, e no Parque Madureira 4,5 toneladas. Todos os anos é isso, e pouca ou nenhuma importância damos. Esse absurdo já se tornou parte de nossa vergonhosa história, já entrou para a rotina da Cidade (já nem tão) Maravilhosa. Em país onde a educação recebe prioridade total, diferente daquela prioridade nossa que alguns embusteiros alardearam no passado, isso não acontece. A propósito, lembrei-me daquela frase que muitos atribuem a autoria ao saudoso Francisco Cândido Xavier: “Ambiente limpo não é o que mais se limpa e sim o que menos se suja.”

Aliás, para não deixar passar em branco, já repararam como ficam as salas de projeção ao término dos filmes? Minha tia enviou imagem recentemente, via zap, de uma experiência própria. Um vexame! Algo está errado, não? O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) que o diga.

Vejam: ainda sobre sujeira e falta de educação, estudo realizado ano passado pelo Instituto Trata Brasil informa que 55% do esgoto produzido pelo país é despejado diretamente na natureza, o que corresponde a 5,2 bilhões de metros cúbicos por ano ou quase 6 mil piscinas olímpicas de esgoto por dia. Onde a educação é precária, os políticos deitam e rolam nos propinodutos da vida, “esquecem” de realizar obras de saneamento, dentre outras muitas coisas em prol dos cidadãos que pagam impostos, e as fiscalizações e cobranças por parte da sociedade são o que vemos por aí, abaixo da média.

(A imagem que ilustra esta postagem foi publicada no site G1 em 26/11/2018. Clique sobre ela para ver a matéria completa. O tempo passa, nada muda.)

Sobre Mauro Blanco

Sou carioca da gema, morador da Zona Oeste, tricolor, bacharel e mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor concursado da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Já atuei como Oficial Temporário no Exército Brasileiro, na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (como Subgerente na Gerência de Vetores), na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (como Coordenador de Controle de Vetores, Coordenador de Vigilância Ambiental em Saúde e Diretor do Centro de Vigilância e Fiscalização Sanitária em Zoonoses Paulo Dacorso Filho), e na Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, instância pertencente à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, como Subsecretário.
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2 respostas para Inguinorança, a bródi do pogresso

  1. Simone Lata disse:

    Oi Mauro, infelizmente assistimos por situações assim todos os dias, pessoas jogando lixo nas ruas sem o menor constrangimento. E o pior, quando o poder público faz algo em benefício, alguns ainda conseguem destruir. No bairro onde moro, no governo passado, a Comlurb instalou várias lixeiras. Fiquei muito satisfeita na época, pois passeio com minha cadela e recolho suas fezes, e com as lixeiras facilitava bastante. Em pouco tempo todas lixeiras foram destruídas. No início ainda tentaram repo-las, mas novamente foram destruídas. Acredito que é preciso ter iniciativas educativas a todo momento, não só nas escolas, mas nos meios de comunicação também. É impossível exigimos do poder público, se “nós” como cidadãos, não fazemos a nossa parte. Beijo grande.

    • Mauro Blanco disse:

      Querida amiga Simone, no bairro de Campo Grande, onde moro, ocorre o mesmo. A situação é generalizada, infelizmente. É essa falta de educação, em minha opinião, que não nos deixa avançar. Algo urgente precisa ser feito.

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