Faltam atitudes… amazônicas!

“A Amazônia é o pulmão do mundo”. Trata-se de um bordão que talvez só seja superado em desgaste pelo “Brasil, país do futuro”. Tendo em vista a atual comoção, aqui e alhures, em relação ao tema, venho nesta publicação prestar a minha modesta contribuição. Falar da Amazônia é fácil, mais ainda à distância, sem conhecê-la minimamente.

Nas ruínas do Forte Príncipe da Beira/RO.

Quando eu estava na ativa, nos tempos em que servi no Exército Brasileiro como oficial temporário, tive oportunidade de trabalhar, na área de entomologia/doenças tropicais e acompanhando militares norte-americanos, em território da Amazônia Legal. Estive em Rondônia, mais especificamente num município fronteiriço com a Bolívia chamado Costa Marques, por uma ocasião no ano de 1991 e duas vezes em 1992. Também trabalhei em Manaus/AM, isso em 1994. Ficava por lá cerca de 15 dias em cada empreitada, e, para aproveitar o tempo menos chuvoso, os deslocamentos eram normalmente feitos, por solo, entre os meses de julho e setembro.

Trajeto em solo, entre Porto Velho e Costa Marques. Quase 10 horas de estrada esburacada.

Dentro da mata.

Em Rondônia, às margens do rio Guaporé, onde nadei e suportei os insistentes e agressivos “piuns” (Simulium spp.), em poucas chances vi o céu completamente azul. Curioso, perguntei a moradores locais e fui informado de que aquele tempo “nublado” não ocorria por conta de condições meteorológicas adversas, mas sim em decorrência de queimadas constantes na região. Sim, a floresta já estava em chamas no início dos anos 90, quando Fernando Collor estava sentado na cadeira presidencial. Cá para nós: vocês acham, francamente, que houve melhora significativa de lá para cá? Claro que não! Entra governo e sai governo, e aqui ressalto que o problema vem de décadas, o discurso suplanta quase que integralmente a prática. Continuamos no “salvem a Amazônia”… Deveria ser “salvem – afinal – a Amazônia”, não?

Primeira vez em Rondônia, ano de 1991.

Nós, brasileiros, contribuímos bastante com todo o desastre que acontece naquela magnífica floresta, mas ressalto que há, obviamente, interesses estratégicos dos gringos em toda aquela riqueza. Ou alguém aí pensa que o Primeiro Mundo está interessado em preservar as nossas matas? O que mais eu vi em terras amazônicas foram americanos, ingleses, alemães, franceses… e digo com certeza que não eram meros turistas. Estavam por ali representando alguma instituição, alguma corporação, alguma dessas embusteiras ONGs.

Só não lembro de ter visto, nas ocasiões em que estive em Rondônia, algum norueguês. Mas que eles estão por lá, estão. Procurem se inteirar sobre uma mineradora chamada Norsk Hydro. O governo da Noruega é dono de pelo menos 1/3 dela. Essa gigante poluidora é alvo de uma série de denúncias do Ministério Público Federal do Pará e de quase 2 mil processos judiciais por contaminação de rios e comunidades de Barcarena (PA). Além disso, laudo divulgado pelo Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde, denuncia que a empresa usou uma tubulação clandestina de lançamento de efluentes não tratados em um conjunto de nascentes do rio Muripi, também no Pará. E depois cantam de galo quando a corda aperta e dizem que não vão mais liberar verbas para “proteger” a Amazônia. Esmolas nos davam, nada mais do que isso, para calarem nossas bocas e continuarem a praticar os costumeiros absurdos dentro de nosso quintal, sob as nossas barbas.

Noto uma imobilidade geral, mas não somente dos governos federais que já passaram. Onde estão os srs. governadores dos Estados que compõem a Amazônia Legal, os srs. deputados estaduais, os srs. vereadores, os empresários, enfim, os cidadãos daquela extensa região? Onde estão os nossos parlamentares que não endurecem as leis contra o desmatamento ilegal, com as consequentes destruições de nossas fauna e flora nativas? Por que os recursos bilionários do escandaloso Fundo Partidário não são revertidos em algo positivo ao nosso ecossistema? A hora é essa, chega de vergonhosas votações simbólicas (ou diabólicas) na calada da noite.

E a devastação não ocorre apenas no norte do Brasil, mas por todos os recantos do território nacional. Não precisamos ir longe, aqui mesmo no meu bairro só vejo árvores sendo derrubadas… e neca de plantio, neca de compensação ambiental.

Clique aqui para saber qual árvore plantar em sua cidade.

Bater panelas nas janelas, no conforto proporcionado pelas cidades grandes, é muito bacana, principalmente para dar audiência e munição à Rede Globo e outras mídias oportunistas, mas o importante mesmo é nos perguntarmos o que estamos fazendo para reverter esse quadro caótico. Quando foi a mais recente ocasião na qual você plantou uma árvore? Lembra? Eu fiz isso há uns três ou quatro anos e, com sinceridade absoluta, sinto-me muito mal em não ter me mostrado mais útil à Terra. Mãos à obra! É importante fazer mais, muito mais, do que ficar no chatíssimo mimimi.

Finalizando, é claro que a Amazônia precisa de atitudes amazônicas, proporcionais à sua descomunal grandeza. Legislação atualizada, fiscalização atenta e instrumentalizada, repressão duríssima aos crimes ambientais, vontade política, consciência/engajamento da sociedade e reflorestamento intenso e urgente são medidas para ontem.

Sobre Mauro Blanco

Sou carioca da gema, morador da Zona Oeste, tricolor, bacharel e mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor concursado da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, lotado na Superintendência de Vigilância Sanitária. Já atuei como Oficial Temporário no Exército Brasileiro, na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (como Subgerente na Gerência de Vetores), na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (como Coordenador de Controle de Vetores, Coordenador de Vigilância Ambiental em Saúde e Diretor do Centro de Vigilância e Fiscalização Sanitária em Zoonoses Paulo Dacorso Filho), na Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, instância pertencente à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, como Subsecretário, e na Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, também Prefeitura do Rio, como Chefe de Gabinete.
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2 respostas para Faltam atitudes… amazônicas!

  1. SANDRA REGINA NETO disse:

    Está certíssimo em tudo o que escreveu. Nas redes sociais estou sempre falando a mesma coisa.
    Aquela floresta está queimando há mais de 15 dias e só agora começam a tomar alguma atitude, que para mim é bem pouco mandar 30 militares de um lado e hoje o Governador do Rio disse que mandaria mais 20, tão de sacanagem!!!!!
    Mas o que venho dizendo há dias é que temos que tentar parar com os focos de incêndio, depois se vê de quem é a culpa.
    Nas redes sociais só se lê criticas apontando esse ou aquele, ninguém fala vamos fazer uma força tarefa e vamos lá.
    É mais fácil reclamar em casa assistindo televisão.
    Todos nós sabemos que aquela área é ocupada por exploradores de madeira, garimpos clandestinos e a grilagem das terras, portanto muitos têm medo de enfrentar e acontecer o mesmo que ao Chico Mendes e aquela freira que agora me fugiu o nome.
    Mas é em nome deste medo que a situação está assim.
    Choram pelos animais mortos na Amazônia, porém passam por animais nas ruas e não sentem um pingo de piedade por eles, vc mesmo viu nesse último mês como me estressei para tentar salvar a vida de dois cachorros em momentos diferentes, infelizmente um veio a óbito e o outro depois de 3 dias consegui que buscassem.
    Quantas pessoas nem molham as plantas que tem dentro de casa e depois se acham no direito de falar mal de especialistas e cientistas que descrevem que isso não é de agora que sempre ocorreu. Que todos os governos foram omissos.
    Desculpe o desabafo amigo, mas é muito triste ver o que está acontecendo e as besteiras que estão falando.

    • Mauro Blanco disse:

      Maravilha o seu comentário, Sandra. Omissão geral. Dos presidentes da república ao zé povão, que prefere bater panelas e ficar no mimimi do que tomar alguma atitude concreta. Se cada um de nós plantássemos ao menos uma árvore por ano, milhões delas estariam por aí, crescendo em todos as regiões do Brasil. Muita balela, pouca ou nenhuma ação efetiva.

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