Bebendo com plástico, bebendo plástico

No final do ano passado começou a correr notícia de que havia micropartículas de plástico na água que sai de algumas torneiras brasileiras, mais especificamente na cidade de São Paulo.  Nove das dez amostras coletadas por lá continham fibras. Um amplo estudo foi realizado em cinco continentes do planeta e evidenciou que 83% das amostras de água está contaminada, embora não se saiba ainda, ao certo, quais os riscos iminentes para a saúde humana e animal.

Há pesquisadores que dizem ser possível que as fibras de plástico liberem substâncias tóxicas quando consumidas pelas pessoas, lembrando que os plásticos têm grande afinidade química por inseticidas e metais pesados. O aquecimento da água contaminada para o cozimento de alimentos pode liberar partículas aderidas ao microplástico. Além disso, é importante ressaltar que os animais marinhos consumidos pelas pessoas, como por exemplo as ostras, acumulam em seus organismos esse material após o mesmo ser carreado pelos rios até os oceanos.

Anualmente são produzidas 270 milhões de toneladas de plástico no mundo todo e estima-se que 40% disso seja descartado após o primeiro uso. Como resultado, fragmentos de plástico já foram encontrados em muitos locais fora dos grandes centros urbanos: no gelo ártico, lagos e rios remotos, nos oceanos e até na atmosfera, mas na água potável foi uma novidade… preocupante. Segundo o oceanógrafo Felipe Gusmão, da Universidade Federal de São Paulo, “estudos sobre microplásticos no ambiente de água doce ainda são incipientes, mas a informação disponível sugere que a poluição por eles é ampla”.

Alguém aí já ouviu falar na tal “ilha de lixo”, também conhecida como “ilha de plástico”, que flutua no Oceano Pacífico? Existem outras pelos 7 mares, menores, mas essa estende-se por mil quilômetros, estima-se que tenha quatro milhões de toneladas de lixo plástico, e, em algumas áreas, sua camada de lixo atinge dez metros de profundidade. Não por acaso está localizada próxima à costa de um dos países que mais contribui com a poluição planetária, os Estados Unidos da América. Para saber mais sobre essa aberração criada por nós, leia o texto escrito pela colega médica veterinária Paula Baldassin, doutora em oceanografia pela USP.

Localização da enorme camada flutuante de plástico, com proporções continentais, que ameaça a vida de diversas espécies marinhas.

Assisti recentemente a um vídeo impactante na internet, feito em 2015, que me fez repensar algumas atitudes: o de uma tartaruga marinha que teve um canudo plástico, que não é de material biodegradável, retirado de uma das narinas. Após assistir ao martírio do quelônio, passei, juntamente com minha família, a não utilizar mais os canudos que nos fornecem nos restaurantes e lanchonetes. Levamos para casa todos eles e, enquanto ainda não identificamos o que fazer com esse material, seu destino é um recipiente em nossa cozinha. Esses canudos não irão para o mar, ou para lugar algum. Fiz um vídeo no YouTube sobre isso, que se encontra no final deste texto.

O vídeo que viralizou na internet é de autoria da bióloga marinha Christine Figgener. Ela realizava pesquisa de campo para o doutorado, no litoral oeste da Costa Rica, Oceano Pacífico.

Segundo a campanha The Last Plastic Straw (o último canudo de plástico), só nos EUA são 500 milhões de canudos usados diariamente. O projeto foi criado para conscientizar a população sobre as consequências do uso do utensílio. A fundadora do movimento, Jackie Nunez, vive na baía de Monterey, na Califórnia, onde são coletados nas praias cerca de 5 mil canudos anualmente.

Sobre Mauro Blanco

Sou carioca da gema, morador da Zona Oeste, tricolor, bacharel e mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor concursado da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Já atuei como Oficial Temporário no Exército Brasileiro, na Companhia Municipal de Limpeza Urbana (como Subgerente na Gerência de Vetores), na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (como Coordenador de Controle de Vetores, Coordenador de Vigilância Ambiental em Saúde e Diretor do Centro de Vigilância e Fiscalização Sanitária em Zoonoses Paulo Dacorso Filho), e na Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, instância pertencente à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, como Subsecretário.
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12 respostas para Bebendo com plástico, bebendo plástico

  1. Denise Mitiko Farah disse:

    Muito triste isso tudo. Só que p/conscientizar essas pessoas ignorantes vai levar tempo…até lá, acho que não terá mais nenhum animal vivo, principalmente nos mares

    • Mauro Blanco disse:

      Cara Mitiko, acredito que somente a educação poderá nos livrar dessas e de outras tantas mazelas. Enquanto não investirmos pesadamente em educação, nosso futuro e o das gerações vindouras estará inevitavelmente comprometido.

  2. Rosa Maria Antunes disse:

    Excelente amigo Mauro!
    Obrigada!

    • Mauro Blanco disse:

      Obrigado pelo apoio e pela atenção, amiga Rosa. Os problemas ocasionados pela poluição por plásticos são sérios e, cada vez mais, farão parte de nossas vidas. Temos de encontrar alternativas para que a saúde planetária não seja completamente comprometida pelos plásticos em breve.

  3. Carlos Tadeu disse:

    Literalmente o animal homem foi um descuido da Natureza. Parabéns pelo belo texto, Doutor Mauro! Forte abraço e rumo à vitória nesse ano de lutas e conquistas!

  4. Vale ressaltar q até esquentar comida em vasilhames plásticos não é aconselhável, pois pode liberar dioxina, o qual pode acarretar câncer das suas diversas formas.

  5. Roberto Guimarães disse:

    A maior desgraça que o Homem inventou foi com certeza o plástico.

  6. Cláudia Guerreiro disse:

    Triste demais! Cada vez que vejo uma imagem de um animal nessas condições, ou morrendo por isso, eu choro. É impactante,é pra repensar,é inaceitável e urgente. Ciente que como ser humano e cidadã, o que faço representa apenas um grão de areia nessa cadeia da vida.Eu queria um caminhão de areia. Precisamos de mais educação, criar consciência principalmente relacionada a natureza brasileira, riquíssima. Os poderosos não viabilizam condições pra que mais pessoas façam descarte seletivo e grandes usinas de transformação já deveriam ter sido criadas. Tudo ainda é muito caro nesse sentido por aqui. Com pouco incentivo, nada se faz em larga escala.

    • Mauro Blanco disse:

      É isso aí, minha amiga, vizinha e colega de profissão, Cláudia. Falta-nos consciência ambiental, educação, iniciativa, políticas públicas… Mas, conforme disse no vídeo, façamos como o beija-flor, de gotinha em gotinha. Ampliemos a legião de beija-flores! Veja a publicação onde escrevo sobre reciclagem, vais gostar.

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